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Sérgio Moro virou um “soldado raso” do bolsonarismo, mostra articulista

Ex-juiz deixou de ser paladino e passou a dar respostas vazias a temas atuais

O jornalista João Filho, do The Intercept Brasil apontou em uma análise que o ex-juiz Sérgio Moro, outrora um “herói nacional” se transformou em um político “de fato”. Passou a “perdoar” os amigos e tornou-se evasivo quando questionado sobre os escândalos que envolvem o filho do presidente Jair Bolsonaro, o senador eleito Flávio, cujo histórico financeiro chamou a atenção das autoridades pelas “movimentações atípicas” que no passado haviam sido classificadas pelo próprio Moro como “fortes indícios de lavagem de dinheiro”.

Veja um trecho:

NOS ÚLTIMOS ANOS, Sergio Moro se tornou o grande herói brasileiro do combate à corrupção. Ganhou prêmios, deu muitas entrevistas, viajou pelo mundo contando seus feitos, enfim, se sentiu muito bem no papel de salvador da pátria. Depois de se dedicar em apressar a prisão do candidato que liderava as pesquisas presidenciais e, consequentemente, pavimentar o caminho para o desfile vitorioso da extrema direita, topou fazer parte do novo governo.

Mas o nosso herói já conhecia o histórico da família Bolsonaro na distribuição de tetas para amigos e parentes no serviço público. Sabia que Jair Bolsonaro encaminhou R$ 200 mil recebidos da JBS para o partido mais investigado pela Lava Jato. Sabia que a Wal do Açaí era uma funcionária fantasma. Sabia que o presidente sonegou e incentivava a população a sonegar impostos. E também sabia da simpatia dele e de seus filhos pelas milícias. Bolsonaro chegou a defender grupos de extermínio da Bahia em plena Câmara dos Deputados. Como diria Jair, basta fazer uma “retrospectiva do passado” para concluir que o juiz topou integrar um governo cujas credenciais éticas do seu líder eram amplamente conhecidas. Moro sabia de tudo.

As notícias desta semana já não deixam mais dúvidas: o presidente tem ligações com as milícias do Rio de Janeiro. Sim, porque não é mais possível descolar as ações do senador Flávio do presidente Jair. Há fatos suficientes para se fazer essa afirmação.

Foi o presidente que apresentou o motorista Queiroz para Flávio, que era apenas uma criança quando seu pai e ele iniciaram uma amizade que já dura mais de quatro décadas. Bolsonaro não explicou o contexto nem apresentou comprovante do empréstimo feito a Queiroz, o homem que conseguiu empregos no gabinete de Flávio para a mulher e ex-esposa do chefe da milícia de Rio das Pedras — o mesmo lugar em que Queiroz ficou escondido antes de ser internado no Albert Einstein. A primeira-dama Michele Bolsonaro está sendo investigada pela Receita Federal por receber um cheque de Queiroz que, segundo Jair Bolsonaro, seria o pagamento do empréstimo feito a ele. O presidente da República é também sócio de Flávio Bolsonaro em uma empresa que o filho omitiu na declaração para o TSE.

Não adianta o presidente dizer que nada tem a ver com as ações do seu “garoto”, que só chegou ao Senado por causa do sobrenome. Trata-se de uma família que cresceu e enriqueceu unida ao longo dos anos na política. Negar isso agora é apenas cinismo. O deputado Eduardo Bolsonaro, por exemplo, é deputado federal, mas tem atuado como um dos porta-vozes do governo federal no exterior. Assim como o vereador Carlos Bolsonaro trabalha com as redes sociais do presidente. Tudo junto e misturado.

Sergio Moro sentado na janelinha do Aerolula / Foto: Alan Santos/PR

Moro largou uma carreira jurídica admirada por boa parte da sociedade para virar um político bolsonarista. Para todo problema ético do governo Bolsonaro, Sergio Moro tem uma resposta hipócrita e constrangedora. Quando Onyx Lorenzoni foi pego duas vezes no caixa 2 — crime que o ex-juiz considerava “pior que corrupção” — Moro aceitou seu pedido desculpas e afirmou que o chefe da Casa Civil goza da sua “confiança pessoal”.

Na semana em que o núcleo bolsonarista aparece envolvido até o osso com as milícias do Rio de Janeiro, o super ministro da Justiça deixou a violência correndo solta no Ceará e viajou com o presidente para Davos. Eu não entendi muito bem o que ele foi fazer em um fórum econômico além de conferir um verniz ético que falta para o governo Bolsonaro, mas, beleza, a explicação até que é razoável. Ele diz que foi apresentar seu trabalho “contra a corrupção, contra o crime organizado, contra o crime violento” e que trabalhar isso no “ambiente de Davos, é bom para os negócios”. Ok. O problema é que no ambiente do Brasil, as ligações da família do presidente com a corrupção, com o crime organizado e violento do Rio de Janeiro estão ficando cada vez mais evidentes.

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Sobre o autor

Jornalista, editor de Painel Político, consultoria em comunicação
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