Ex-juiz sempre defendeu tese que “para achar o chefe, basta seguir o dinheiro”, mas ele ignora esse princípio nos casos mais emblemáticos

O ex-juiz federal e atual ministro da Justiça Sérgio Moro não está aplicando sua principal tese de combate à corrupção que é o “siga o dinheiro para encontrar o chefe“, conforme ele próprio ensinava a seus alunos em cursos e eventos públicos.

Dois casos emblemáticos se alternam na mídia atualmente e chamam a atenção pela demora em soluciona-los, o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e o escândalo envolvendo o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, quando este era deputado estadual, Fabrício Queiroz, que movimentou mais de R$ 7 milhões em suas contas, foi operado no Hospital Albert Einstein, um dos mais caros do país e atualmente está em ‘local incerto’.

E em ambos os casos, o dinheiro aparece de forma gritante. No último dia 10, veio à público a revelação que o sargento reformado da Polícia Militar do Rio de Janeiro Ronnie Lessa, 48, comprou um lote de 3.400 metros quadrados em um condomínio de luxo em Angra dos Reis (RJ). Em julho de 2015, o PM pagou R$ 600 mil à vista pelo terreno no condomínio Portogalo, de acordo com documentos obtidos pelo UOL em cartórios no Rio e em Angra. Corrigido pela inflação, o valor chega a R$ 718 mil. De acordo com dados da PM, ele recebe R$ 7.400 mensais de aposentadoria. Ronnie era um conhecido ‘armeiro’ entre a bandidagem carioca e os milicianos e movimentava vultosas quantias em dinheiro. Uma boa pista a ser seguida, mas que vem sendo ignorada pelas autoridades, que não devem ter feito curso com o ex-juiz.

Já no caso de Fabrício Queiroz, foi autorizada pela justiça a quebra dos sigilos bancário e fiscal tanto do ex-assessor quanto do senador Flávio Bolsonaro, que se diz empresário e que “todas suas movimentações já foram mostradas na TV”. O Ministério Público do Rio discorda dessa afirmação. Em nota, o Parquet afirmou inclusive que o senador estaria “direcionando esforços para interromper as investigações” que em bom português quer dizer “obstruindo a justiça”.

Sérgio Moro vem passando por uma fase complicada à frente do Ministério da Justiça. Uma das principais medidas tomadas pelo presidente Jair Bolsonaro foi feita sem sequer passar por ele, o Decreto das Armas, que o próprio Moro havia apontado inconstitucionalidades. Para complicar ainda mais a vida do ministro, o presidente declarou no fim de semana que ‘tem um compromisso de nomear Moro ao STF’ tão logo surja uma vaga. Moro desmentiu o presidente no dia seguinte, afirmando que ‘não impôs nenhum condicionante para ser ministro’.

O ex-juiz precisa tomar as rédeas de sua pasta, a começar por investigar de uma vez o senador Flávio Bolsonaro. Como a própria família gosta de repetir, ‘quem não deve não teme’, ou ‘a verdade vos libertará’. Esse caso de Fabrício Queiroz precisa ser esclarecido de uma vez por todas, e cá entre nós, em qualquer outro cenário ele já estaria preso e teria que provar sua ‘inocência’ atrás das grades. Já no caso de Marielle, achar os executores não basta, tem que encontrar o mandante. E Ronnie Lessa pode ser qualquer coisa, menos um ideólogo de direita que queria matar a vereadora esquerdista. De direita ele até pode ser, mas ‘fazer serviço de graça’ é querer demais.

Segue o dinheiro Moro, e salve o que resta de sua biografia.

Foto de capa: O Globo

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