Connect with us

Brasil

Elogiado por Bolsonaro, ditador paraguaio Alfredo Stroessner era pedófilo, revelou documentário

Publicada

em

Presidente brasileiro tratou militar, responsável por crimes contra a humanidade, de “estadista”

O presidente Jair Bolsonaro viajou nesta terça-feira para a fronteira com o Paraguai para anunciar, ao lado de seu homólogo, Mario Abdo Benítez, a nomeação das novas autoridades de Itaipu, a hidrelétrica que os dois países compartilham no rio Paraná. O discurso do brasileiro não foi protocolar: quando ninguém esperava, se desfez em elogios ao ditador Alfredo Stroessner, o homem que com mão de ferro controlou o Paraguai entre 1954 e 1989, responsável por milhares de prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos. A hidrelétrica só foi possível, disse ele, “porque do outro lado havia um homem com visão, um estadista que sabia perfeitamente que seu país, o Paraguai, só poderia continuar progredindo se tivesse energia”. “Então, aqui está minha homenagem ao nosso general Alfredo Stroessner”, acrescentou em português, pouco antes de ficar em silêncio para ouvir os aplausos do público e o olhar imóvel de seu colega paraguaio.

Alfredo Stroessner era um pedófilo que violentou milhares de meninas durante seu regime. O documentário Calle de Silencio”, dirigido por José Elizeche, lançado em 2017, trouxe à luz vários episódios assustadores narrados pelas vítimas do ditador elogiado por Jair Bolsonaro.

Alfredo Stroessner era um ditador, torturador e pedófilo. Morreu em Brasília aos 93 anos em exílio

CLIQUE AQUI PARA LER REPORTAGEM SOBRE O DOCUMENTÁRIO (EM ESPANHOL)

O principal protagonista dos abusos sexuais era o próprio ditador, que exigia um fornecimento constante de garotas virgens para seu uso. O requisito era que as meninas deveriam ter entre 10 e 15 anos de idade. Um dos casos investigados pela Comissão de Verdade e Justiça é o de Julia Ozorio, que tinha 12 anos quando foi sequestrada da casa de seus pais em Nova Itália em 1968 pelo coronel Julián Miers. Ela foi levada a uma chácara, onde foi escrava sexual durante dois anos. Miers era o comandante do regimento que se encarregava da guarda pessoal de Stroessner. Os militares buscavam e sequestravam meninas da área rural de acordo com os ¨gostos¨ de Stroessner e seus ministros.

As primeiras denúncias sobre os estupros sistemáticos do ditador paraguaio foram publicadas pelo jornal The Washington Post em 1977. Segundo os investigadores do Departamento de Memória Histórica e Reparação do Ministério da Justiça em Assunção, capital paraguaia, Stroessner estuprava em média quatro meninas por mês.

Abaixo, o documentário:

Para a historiadora paraguaia e professora da Universidade Católica de Assunção, Margarita Durán Estragó, cada homenagem que os políticos rendem ao ditador faz sangrar as feridas deixadas pelo stroessnerismo. “A nós que continuamos vivos, machuca muito. Eles se aproveitam de que os jovens não se lembram mais das atrocidades da ditadura porque não viveram o que vivemos. É preciso promover a memória, mas nossos vizinhos tampouco ajudam”, disse a pesquisadora, referindo-se a Bolsonaro. “Quem diria que 30 anos depois da queda de Stroessner teríamos como presidente um rebento do stroessnerismo, o filho do próprio secretário particular do ditador”, acrescentou.

O saldo de 35 anos de ditadura foi muito duro para os paraguaios. Quando um golpe palaciano expulsou Stroessner do poder em 1989, 336 pessoas estavam desaparecidas, 19.862 pessoas haviam sido presas e outras 20.000 haviam sido torturadas. O Governo militar enviou 3.479 paraguaios ao exílio, segundo números da Comissão da Verdade e Justiça que investigou o passado com a chegada da democracia.

“O ex-ditador Alfredo Stroessner morreu em agosto de 2006 em Brasília, aos 93 anos. O Paraguai, que ele governou com mão-de-ferro durante mais de três décadas, o acusava de assassinatos e torturas. Além disso, segundo alguns testemunhos, o regime de Stroessner abrigou criminosos de guerra nazistas como Josef Mengele e participou da Operação Condor, de cooperação entre regimes militares da América do Sul na década de 1970.”

“Entidades de direitos humanos atribuem mais de 900 assassinatos e milhares de casos de tortura ao regime do ex-general. Stroessner recebeu no Paraguai outros ditadores derrubados, como o nicaraguense Anastásio Somoza, que foi assassinado em Assunção.”

Com informações de diversas fontes – El País, La Nacíon, Ariel Palácios (Correspondente da GloboNews em Buenos Aires para América Latina).



Continue lendo
Anúncios
Comentários